Política, Pesquisa, Literatura e Afins


Política e Pesquisa 155

 

3ª edição do livro PROFESSOR E ALUNO MOTIVADO: ISTO FAZ A DIFERENÇA 

 

O livro PROFESSOR E ALUNO MOTIVADO: ISTO FAZ A DIFERENÇA chegou a 3ª edição atualizada e ampliada. Edição bilíngüe: português e espanhol. (Profesor y alumno motivado: esto hace la diferencia). Teve a participação especial do professor espanhol Dr. José Manuel Bautista Vallejo e prefácio de Celso Antunes. Sucesso das autoras Fabiana Kauark, Iana Muniz e Josanne Morais. O livro começa a encontrar leitores também na Espanha.

 

 

INGRID BETANCOURT

A ex-prisioneira das Farcs, Ingrid Betancourt, após seis anos e quatro meses sobrevivendo na selva da Amazônia colombiana, reaparece em grande estilo. Lúcida, perspicaz, superior, surpreendente. Prazer em ouvi-la. Caso retome carreira política, uma boa opção para os colombianos, seguramente.

 

GANHAR E GOVERNAR

Em geral, a maneira como se conquista o poder revela como será o governo. Há correspondência entre a forma de ganhar e a forma de gerir, depois.

 

VOTO: DOM

Quando o dom do voto é pouco, marketing, dinheiro, alianças e outros recursos podem compensar. Quando o dom é em alto grau, o eleitor parece arrebatado, encantado pelo candidato. Diz-nos Cervantes em seu Don Quixote de la Mancha a propósito de seu escudeiro Sancho Pança ser, subitamente, catapultado a governador de tão acalentada ilha: Infinitas graças dou ao céu, Sancho amigo, de que antes de eu ter topado alguma boa fortuna, te viesse a receber e encontrar a prosperidade; eu, que confiava na minha boa sorte para te pagar os teus serviços, vejo-me ainda muito atrasado, e tu, antes de tempo, e contra a lei das suposições razoáveis, vês os teus desejos premiados. Outros importunam, apoquentam, suplicam, madrugam, rogam, porfiam, e não alcançam o que pretendem, e chega outro, e, sem saber como, nem como não, acha-se com o cargo e ofício que muitos pretenderam: e aqui vem a propósito o dizer-se que há boa e má fortuna nas pretensões. Tu, que sem dúvida és um rústico, sem madrugares nem te tresnoitares, e sem fazeres diligência alguma, só com o alento que te bafejou da cavalaria andante, sem mais nem mais te vês governador de uma ilha. Tudo isto digo, Sancho, para que não atribuas aos teus merecimentos a mercê recebida, e para que dês graças ao céu, que suavemente dispõe as coisas, e em seguida darás graças também à grandeza que em si encerra a profissão da cavalaria andante. (Martin Claret, vol 2, p. 345).

 

CANDIDATOS “FICHA SUJA”, PRISÕES DE PRINCIPAIS, ...

Faz alguns dias vi amigo preocupado. Blitz numa das ruas da cidade e a moto de amigo do amigo fora apreendida. Problema na documentação. Vencida. Horas depois. Esse amigo estava radiante. Após ligação via celular com amigo policial (não era chefe), sabia que no dia seguinte não haveria multa e a moto seria recuperada. Diante da facilidade com que resolveu o problema, pensei com meu eu imaginário. E eu já paguei algumas multas. Essa introdução é para realçar outra questão: que relação haveria entre “candidatos sujos” desejosos de disputar as eleições, prisões e solturas do ex-prefeito Celso Pitta, do investidor Naji Nahas e do banqueiro Daniel Dantas? É provável que estejamos frente a um mal sistêmico, difícil de superar. Os desdobramentos desse episódio parecem reveladores.

 

Nota a posteriori

Hoje, 16 de julho, a Associação Comercial e Empresarial de Itabuna - ACI, está em festa. Será na Associação Atlética Banco do Brasil-AABB. Uma homenagem aos 100 anos da Associação. Itabuna emancipou-se dois anos depois de sua criação. Não é preciso dizer do papel que teve nesse processo. Em 100 anos, gerações de empresários se sucederam. Parabéns aos que a construíram e aos que dão continuidade a esse projeto. O centenário testemunha relevância e contribuição.  

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 16h00
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Política e Pesquisa 154

 

BAHIA DE TODAS AS LETRAS, 3ª edição

 

A terceira edição do concurso literário Bahia de Todas as Letras teve 108 inscritos, sendo 69 na categoria poesia, 35 na categoria conto e quadro na categoria teatro. Não houve nenhuma inscrição na categoria ensaio literário.

Por gênero, inscreveram-se 41 do sexo feminino e 67, masculino.

Por cidade de nascimento, 28 inscritos nasceram em Itabuna, 17 em Feira de Santana e 14 em Salvador. Nove nasceram em outros estados.

Por cidade de residência, 28 residem em Itabuna, 21 em Salvador, 20 em Feira de Santana e 16 em Ilhéus. A comparação entre cidade de nascimento e de residência espelha o resultado do processo migratório, também entre os que escrevem. Os trabalhos estão com os avaliadores.

 

Cabôco Alencar

Cabôco Alencar, livro de Adylson Machado, sobre o Cabôco Alencar Pereira e o tradicionalíssimo ABC da Noite foi sucesso de vendas no lançamento no ambiente do próprio ABC da Noite. O espírito do Cabôco imortalizado pelo romancista e professor Adylson Machado num belo livro de bolso.

 

Pré-temporada e temporada eleitoral

Com o fim das convenções e a definição dos candidatos, começa a temporada eleitoral propriamente dita. A partir de agora, as pesquisas começarão a definir mais claramente as tendências.

Cada disputa eleitoral é sempre singular, única. Não há repetição. Contudo, se se tiver presente a história de cada município, é possível se ter alguma luz. Ainda que o passado não necessariamente reproduza o futuro, parece digno de atenção. Por exemplo, alguns municípios se caracterizam como palcos de disputas acirradas, em que o eleitorado tende a se dividir em duas metades equivalentes. Nesses municípios, em que se inclui aqui no Sul da Bahia Itabuna, Ipiaú e Jussari entre outros, saber quem vencerá somente após contar os votos. Em outros municípios, como em Ilhéus, por exemplo, com alguns meses de antecedência, o quadro parece definido e as urnas parecem cumprir o que as pesquisas já captavam, já que o vencedor consegue expressiva margem sobre seus oponentes. Enfim, se o passado não tem poder de assegurar o futuro, mesmo assim, merece ser considerado, pelo menos lança alguma luz. Esperar e conferir.

 

Pesquisa falsa

Uma pesquisa falsa, atribuída a Sócio Estatística apareceu em Brumado. Foi a primeira desta temporada.  

 

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 23h33
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Política e Pesquisa 153

 

Onde há fumaça, há necessariamente fogo? 

Um dado preocupante, da perspectiva da empresa de pesquisa, é que nos últimos dois meses recebemos várias ligações de pessoas, algumas conhecidas. O conteúdo recebido desses telefonemas é basicamente o seguinte: entrevistadores se apresentando como sendo da Sócio Estatística, utilizando crachá da empresa. Na época informada, contudo, não havia nenhuma pesquisa da Sócio nessas cidades. As cidades em que recebemos esses telefonemas foram as seguintes: Encruzilhada, Riacho de Santana, Aiquara, Santa Luzia e, por último, Buerarema, nesse último sábado. Nessa última cidade, quem nos ligou, informado da existência dessa pesquisa, foi à rua e se fez entrevistar. No crachá com logomarca da empresa, não havia nome do entrevistador e nenhum dado de identificação mais. O que podemos dizer, por ora, é que em nosso crachá, além da logomarca, há dados da empresa, como endereço, telefone e email, mais foto e nome do entrevistador e a própria página na Internet. Confirmada a existência dessa clonagem, há prejuízos à imagem da empresa junto aos eleitores, construída ao longo de quase duas décadas. O eleitor também está exposto, uma vez que o que informar poderá ser utilizado de forma indevida, até contra ele. É um direito sagrado do eleitor entrevistado ter assegurado o sigilo de sua informação e que essa não tenha nenhum uso individualizado, muito menos em seu prejuízo.

 

Jussara versus Iruman 

Nas últimas semanas, Iruman Contreiras, advogado, radialista e ex-secretário da segunda administração de Geraldo Simões, decidiu disputar a indicação do Partido dos Trabalhadores em Itabuna. Colocou carro de som e faixas nas principais vias da cidade. Como resultado, legitimou Jussara, que venceu com larga margem, com quase 90% dos votos dos filiados que compareceram à prévia. 

 

Roberto Barbosa

Outdoor festejando o aniversário da empresa Minas Aço, do empresário Roberto Barbosa. Com a palavra CONFIANÇA em letras maiores. Novo na arte da política, Roberto está aprendendo rapidamente a necessidade de visibilidade. Como outros, em busca da confiança do eleitor, segue em sua peregrinação, pelas estações de rádio, pelos bairros, de reunião em reunião. Na política, aprende-se rápido muitas coisas e aguça-se a sensibilidade. O problema é que o que se constrói numa reunião ou numa entrevista um outro pretendendo ao cobiçado cargo, pode desconstruir. Vence quem consegue passar mais confiança, mais segurança. E, aqui, alguns nascem com o dom de empatizar e, porque não dizer, de enfeitiçar o eleitor.

 

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 19h03
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POLÍTICA E PESQUISA 152
 

Registro de pesquisa eleitoral em Itapé

No dia 13 de abril de 2008 a Sócio Estatística realizou pesquisa em Itapé e que acabou de ser liberada pela Justiça Eleitoral publicação (Comarca de Itabuna, 27ª Zona  Eleitoral).

A amostra do tipo probabilística estratificada por idade, sexo e regiões da cidade. Corresponde a um erro amostral em torno de 6%.   Ao todo, foram consideradas válidas as respostas de 308 cidadãos.

Em Itapé, o governo Lula tem avaliação tendendo ao positivo. 76,3% de avaliação positiva contra 2,2% de negativa.  O governo de Jacques Wagner tem avaliação como tendendo levemente ao positivo: 36,4% de avaliação positiva contra 21,5% de negativa. A administração municipal é avaliada como tendendo ao positivo: 78,3% de avaliação positiva contra 8,7% de negativa. Lembrando que o conceito regular, em momentos de decisão, tende a assumir valor negativo.

Quadro eleitoral: principais resultados   

Na pesquisa espontânea, Pedrão teria 58,4%, Dr. Humberto teria 8,8%, Prof. Roque 0,3%. Os que não sabem somam 32,5%.

Na pesquisa estimulada, Pedrão teria 65,6%, Dr. Humberto teria 16,2%. Prof. Roque 1,6%. Naéliton 0,6%. Nulos 0,3%. Os que não sabem somam 15,6%.

Na pesquisa de rejeição, Pedrão teria 12,6%, Dr. Humberto teria 33,4%, prof. Roque teria 25,8% e Naéliton 31,5%.

Esse era o retrato do quando eleitoral em 13 de abril de 2008. Com o passar do tempo, o quadro pode sofrer alterações, corroendo a validade da presente pesquisa e de todas as pesquisas.

 

CRISE = PERSPECTIVAS DE BONS NEGÓCIOS E GRANDES LUCROS
O sistema capitalista tem nas crises de escassez, real ou induzida, seus períodos de lucros exuberantes. Está sendo assim faz alguns anos com o petróleo e as turbulências provocadas pela guerra e pelo terror (basta ver o balanço das companhias petrolíferas mundo afora), está sendo assim mais recentemente com os alimentos.
Crise para o sistema, ao contrário do que é para as pessoas, sobretudo as mais pobres, é o excesso, a superprodução. Escassez rima com lucros extraordinários, ainda que no caso dos alimentos, produza desnutrição, fome e morte para muitos desfavorecidos pelo destino (nascer em berço amaldiçoado), pelo clima, pelas circunstâncias e outros fatores.
Para o Brasil, especialmente para o agronegócio brasileiro, oportunidades de ganhos, mesmo com o Real em queda progressiva frente ao Dólar norte-americano.
As terras viverão período de valorização.
Marina Silva, ex-ministra da pasta do Meio Ambiente, referência da defesa da Amazônia, sai do comando num momento delicado. Coincide com um provável aumento da pressão sobre as florestas, objetivando convertê-las em pastos e lavouras.
É claro que a o biocombustível, à base da cana-de-açúcar, não pode ser responsabilizado pela crise dos alimentos mundial, ao contrário do milho norte-americano, que impactou diretamente e detonou o processo de subida dos preços pela crescente escassez induzida pelo desvio dos grãos da alimentação animal e humana para o biocomubstível norteamericano.
Contudo, como já observamos, as melhores terras são para os cultivos mais lucrativos. Sendo assim, não parece fácil convencer pecuaristas e empresários rurais que pastos degradados são melhores opções do que florestas. 
 
Registro 1: a ponte que liga o centro da cidade de Ilhéus ao bairro do Pontal, também em Ilhéus, está passando por vistoria e reforma. Em tempo e oportuna.
 
Registro 2: Vox Populi: Souto tem 50%, Wagner, 28%

Pesquisa do Instituto Vox Populi mostra que o candidato do PFL, Paulo Souto, aparece com 50% das intenções de voto e venceria no primeiro turno. Em seguida vem o petista Jaques Wagner, com 28%.

Manchete do jornal A Tarde eletrônico, no final do dia da última eleição para governador da Bahia. Contudo, quem se desse ao trabalho de clicar na matéria descobriria que se tratava de pesquisa velha, matéria com validade vencida.

 

Registro 3: empresas de pesquisa

Em Itabuna atuam hoje pelo menos seis empresas de pesquisa. São as oportunidades criadas pelo período político-eleitoral. Em praticamente todas as cidades médias da Bahia atuam hoje empresas de pesquisa e/ou profissionais na realização de pesquisas. Houve um tempo em que a Selém, primeira empresa a se instalar, reinava sozinha e soberana neste pedaço de chão. Já se passaram mais de 20 anos. A paisagem ficou mais complexa. 

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 16h05
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 Política e Pesquisa 151

 

O poder do corporativismo

O Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) avaliou os cursos de medicina do país e todos os outros cursos. Dado que este comentário foca medicina, observo que o curso de medicina da Uesc ficou em 28º lugar no país, primeiro da Bahia e segundo do Nordeste. Fez bonito. Contudo, o curso de medicina da Ufba, herdeiro do primeiro curso de medicina do país, fundado em 1808, pelo próprio D. João VI, quando fugiu de Napoleão e instalou a capital do império luso no país, na cidade do Rio de Janeiro, não foi bem (obteve média 2, numa escala de 1 a 5). Não foi bem o curso e foi muito pior o seu coordenador, Antonio Dantas, que jogou toda a responsabilidade aos alunos, inocentando o corpo docente, currículo, estrutura física.

As afirmações do coordenador foram dadas a Folha de São Paulo e reafirmadas no G1, da Globo. Foram contestadas pelo reitor da Ufba, Naomar Monteiro, mas o estrago já estava feito.

O coordenador desse curso revelou que não conhece os alunos que estão no curso que coordena. Não faz idéia do processo seletivo porque passaram para poder cursá-lo. Cegado pelo corporativismo, não conseguiu avaliar o que está acontecendo, nem se auto-avaliar. Esse episódio permite se ver como é difícil a auto-crítica, a avaliação e como é prejudicial o corporativismo quando toma conta de sua situação, impedindo que uma realidade seja percebida tal qual é. No caso específico do curso de medicina da Ufba, seguramente, o último responsável a ser procurado é o estudante e o seu QI. Se a medicina da Ufba quiser honrar sua história, terá que repensar muita coisa, método, currículo, professores e, quem sabe, após esse repensar os estudantes espelhem uma outra realidade. E o berimbau não merecia ser colocado como referência.

 

Futebol: Inter, Grêmio e Juventude

O Inter, até hoje, era freguês do Juventude, na história recente do clube. Nos últimos 10 jogos, tinha perdido 7. Neste ano, no campeonato Gaúcho, o Inter perdeu apenas 3 jogos, todos para o Juventude. Hoje, no jogo que valia o campeonato, o Juventude perdeu por 8 a 1. Já o Grêmio ganhou praticamente todos os jogos contra o Juventude nos últimos anos. Neste ano, perdeu o último, o que não poderia ter perdido e que lhe valeu a eliminação precoce do campeonato. E isto é um dos ingrediente que torna o futebol o esporte mais popular do mundo.

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 23h36
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Política e Pesquisa 150 - a

 

Ficou pronta a edição do livro Olhos azuis – memórias do submundo de um afrobrasileiro. O que é possível se aprender com alguém que passou pelo submundo do crime, sobreviveu e acredita ter sobrevivido para contar sua história. A seguir entrevista realizada com autor desse livro, Noclides Justino Alves. Perguntas formuladas por Jorge de Souza Araujo.

 

Entrevista com Sr. Noclides sobre o livro denominado “Olhos azuis; memórias do submundo de um afrobrasileiro”:

 

1. O que o motivou a escrever, como o senhor diz, As memórias do submundo de um afro-brasileiro ?

     Autor: Passei a tomar conta de uma biblioteca em São José do Rio Preto em um instituto penal. Isto me motivou a escrever. Eu não deveria ter mencionado esta palavra: afro-brasileiro. Nunca me comportei como um afro.

2. Que idade tinha quando do golpe de 64. Seriam 18 anos, porque alistado no Exército?

     Autor: Em 64 estava com 27 anos. Já estava no mundo do crime. Como menor já tinha praticado alguns atos.

3. O senhor menciona ligações da subversão, prisioneiros na Ilha Grande, com assaltantes em São Paulo, exprimindo que formavam uma grande quadrilha (p.19). Poderia destacar os indícios desse agrupamento?

     Autor: Eu tive ligações com muitos elementos de São Paulo que estiveram na Ilha Grande, incluindo meu irmão mais velho que já morreu. Esteve dois anos  na Ilha Grande. Eu era que dava dinheiro para a mãe visitá-lo. Umas três vezes. Em conversa com meu irmão já falecido, ele me contou que na Ilha Grande tinha de 20 a 30 conhecidos dele da Vila Prudente, incluindo Roberto Cieto, o Pancho, que morreu no Rio.

4.  Suas memórias chegam a cultuar a personalidade de alguns marginais (Capitão, Jorginho, Pancho, Promessinha). Qual seria a motivação principal desse culto?

     Autor: O Sr. Disse que eu estou cultuando a memória de alguns bandidos. Se eu fosse fazer o que o senhor está dizendo, não caberia neste livro. Os americanos falam do Jesse James, Bonnie e Clyde, Al Capone, como se eles tivessem morrido ontem.

5.  Que notícias concretas o senhor tem das relações promíscuas entre a polícia e os assaltantes?

     Autor: Sempre houve essa relação. Não eram todos os policiais e nem eram todos os bandidos.

6.  Que ligações objetivas o senhor teve com a reação à Ditadura, a chamada esquerda subversiva e revolucionária?

     Autor: Não tive nenhuma ligação. Só sei que me fizeram o maior mal, me prendendo sem documento. Não quiseram saber realmente quem eu era. Jogaram-me no Departamento de Investigação-D.I.. Na ida para o presídio de corregedoria, por nome Rua da Alegria. Ficava no Braz. Estouraram a tranca e quase todos fugiram, inclusive eu. Consegui chegar à favela da Vila Prudente, sem ser pego. Meu bom acolhimento na favela foi porque meu irmão foi um dos primeiros a roubar dois ou três carros e levar os bandidos para sair para os quatro cantos de São Paulo, assaltando. Meu irmão já estava no Rio neste tempo. Este foi o motivo porque me trataram muito bem.

7.  Ressalta de seu relato um código de solidariedade e ética entre bandidos. Nesse sentido, sua obra faria apologia ao crime ou ao criminoso?

     Autor: Quem criou ética entre os bandidos não fui eu. Sempre existiu. A máfia italiana foi quem criou, não fui eu. Anos atrás, a filha de um mafioso só casava com filho de mafioso para ficar tudo em família, que não é o caso do meu livro.

8.  Suas memórias tendem a um certo romanceamento das ações dos marginais, a exemplo de Pancho, Promessinha, Jorginho, Chico 13, com ingredientes novelescos envolvendo Pancho e Eugênia, filha de um juiz da vara de execuções criminais no Rio de Janeiro...

     Autor: O senhor disse que há um certo romanceamento das ações dos marginais. Eu omiti muita coisa com razão. Se eu tivesse falado mais coisas, estaria mais preocupado. Se existe ética para ser cumprida, devemos cumpri-la. Eu omiti muitos fatos reais, que deixariam muito mais chocado o leitor. Eu não só conheci estes quatro ou cinco que cito. As histórias que tenho para contar são muitas. Este pouquinho que falei, o senhor  já ficou chocado. Eu não morri com quase quinze anos nos morros do Rio, por não ser de nenhuma facção criminosa. Eu ia em todos os lugares. Eu tenho muitas histórias verdadeiras para contar do Rio e São Paulo. A história do finado Pancho e Eugênia. A morte de Pancho com os subversivos e a verdadeira morte dele com a Eugênia.

9.  Há flagrantes lacunas temporais em seu relato. Há alguma razão objetiva para isso?

        Autor: Não entendi.

10. A personagem do Capitão é inspirada em alguém especial, o Capitão Lamarca, por exemplo? Na hipótese afirmativa, suas memórias associam Lamarca a criminosos comuns nas atividades de guerrilha urbana?

         Autor: Na época da Revolução, os bandidos se uniram mais e começaram a imitar os subversivos, que gostaram e passaram a copiar a ação dos bandidos comuns. Em São Paulo eu conheci mais de dez bandidos comuns que se uniram ao deputado Marighella que era o braço forte da Revolução. Não existe guerrilheiro melhor do que bandido comum, quando tem que agir por contra própria, sem um comando. O capitão era acima de tudo um homem humilde. Morava no Rio, no São Carlos, que é favela, mas parece mais com bairro de classe média. Mas tem favelado também. A humildade cabe em qualquer lugar. Quando ele fugiu do quartel com um caminhão carregado de armas se escondeu no São Carlos, para depois sair fora. Quando não estava em ação, andava só no seu volks e sempre vestido de padre. Eu não associei ele com ninguém.



Escrito por Agenor Gasparetto às 09h06
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Política e Pesquisa 150 - b

11.   No relato direto das ações de que o senhor participou, a violência quase inexiste, não se registram tiroteios e mortes. O senhor não viu a morte de perto, não teve medo, não testemunhou nenhuma ação abjeta da parte dos assaltantes?

         Autor: O senhor está falando comigo não como um escritor e sim como um promotor ou um delegado. Mesmo que o livro fosse ser um bestseller eu não deveria expor da maneira que está exigindo. As duas filhas minhas estão fazendo faculdade aqui em Itabuna, são evangélicas. Não pretendo perder a amizade que tenho por elas para satisfazer meu ego. Quando eu ver o senhor vou mostrar  as marcas de tiros que tenho no corpo. A pessoa se expor por alguns milréis com as filhas e a sociedade depois de tantos anos não é bonito para ninguém. 

12. Que avaliação o senhor faz do período histórico e da atividade criminosa, comparados com as operações do crime organizado de hoje? Concorda que as quadrilhas dos anos 70 aparecem como organizações românticas e que os marginais quase vistos como heróis?

         Autor: Naquele tempo não se matava muito. Não havia interesse em matar ninguém. Não havia prazer em matar. Havia mais romantismo. Não havia ódio do bandido contra a sociedade.  Ódio era questão individual. Com o Esquadrão da Morte começaram a piorar as coisas, que passava o rolo em todo mundo, às vezes dez ou doze pessoas. Morria quem aparecia na frente, muitas vezes de bobeira. Aí, os bandidos começaram a matar também. Achavam que tinham que matar também, sobretudo a polícia.

13. À página 55 de seu livro, o senhor afirma: “Estava com saudades da vida do crime”. Essa afirmação no relato parece sugerir que, para o senhor, o crime compensa, pelo menos para sacudir o tédio?

         Autor: O senhor aproveitou um momento de sinceridade que estava com saudade da vida do crime e a única coisa que falou certo para sacudir o tédio. Quem está na vida do crime nunca comenta com o parceiro que a vida é boa, que a vida é ruim. Um livro não é uma folha corrida de ninguém.

14.   O regime pós 64 compeliu-o à clandestinidade social, mas não à subversão e identidade revolucionária. Como o senhor se sentiu em relação ao golpe e como se sente hoje, quando a marginalidade impõe mudanças de paradigmas?

         Autor: A clandestinidade pode ser considerada um regime de guerra, sendo em nosso caso uma guerrilha urbana que não estávamos acostumados com tal coisa e teve algum esperto que tirou partido do  acontecimento e muitos sofreram, principalmente os estudantes, filhos de classe média e rica. Falar de coisa que a pessoa não tem conhecimento é perder tempo. Hoje eu tenho condições de discutir sobre a política atual. Naquele tempo eu não tinha.

15. O senhor atribui à sorte de ter escapado com vida de tantas peripécias e conseguido contar sua história ora transformada em livro?

         Autor: Ainda tenho minhas dúvidas.

16. O motim na Ilha Anchieta, até por ser tão eletrizante, que importância tem para as suas memórias, já que o senhor só o reconta, não tendo dele participado?

         Autor: Na verdade eu não participei do motim da Ilha Anchieta. Mas ouvi tantas histórias a respeito e conheci muitos que estiveram nela, incluindo o chefe do motim, o Pereira Lima. Estive no escritório do Lima na av Ipiranga esquina av. São João. Naquele tempo ela já tinha uns 80 e poucos anos. Depois fui para o Rio e nunca mais ouvi falar no Pereira Lima.

17. Ao se referir à violência dos amotinados, o senhor dramatiza:”O crime não tem limites de crueldade” (p. 93). Haveria diferença entre um crime e outro?

         Autor: A primeira vez que eu páro para pensar no que o senhor disse: que o crime não tem limites de crueldade. Acho que tem razão. Vamos ter como exemplo o Hitler na 2ª Guerra Mundial. O que ele fez com os judeus, na Alemanha, nos campos de concentração, nos fornos crematórios e outras coisas mais.

18. Sua biografia mereceria uma representação bem mais ampla no relato memorial. Por que o senhor não aprofundou mais as informações sobre sua infância, adolescência, formação e identidade, seus pais e irmãos, o lugar de nascimento, a fixação em São Paulo, o ingresso no submundo, que aconteceu aos outros parceiros de descobertas (Jorginho, Promessinha, Wilma, Michele...)   

         Autor: Vou dizer mais uma coisa. Estava preso em São José do Rio Preto. Fiquei dois anos e depois o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici foi quem me indultou, me livrou de tudo e do resto do tempo. Nem acreditei. Li no jornal, em São Paulo. Sai que nem um besta, com muita alegria. Vamos deixar para o próximo livro. Vamos editar um filme.

 Itabuna, 7 de março de 2007.

 

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Em Salvador, o livro Olhos azuis – memórias do submundo de um afrobrasileiro, assim como outros livros editados pela Via Litterarum, pode ser encontrado nas livrarias LDM, Saraiva e Civilização Brasileira ou via www.vialitterarum.com.br ou www.quiosquecultural.com.br

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 09h05
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Política e Pesquisa 149

 

Feriado de Tiradentes, maior referência para os anseios de liberdade deste país. Dia de sol em Itabuna, ainda que tenha chovido na madrugada. Um belo dia para refletir e imprimir um ritmo mais leve á vida.  Nesse dia, apresento a idéia de um blog portador de um título promissor. Longa vida a essa idéia, portanto.

 

Blog: Diálogos para o futuro

O professor e escritor Jovino Moreira da Silva (jovino40@yahoo.com.br), lança novo blog, por sinal, muito sugestivo. Eis a concepção segundo o próprio Jovino:

“Estava organizando alguns livros quando me deparei com um que continha textos de vários autores e prefaciado por Roland Barthes com o título: “A Crise da Sociedade Contemporânea”. Trata-se de um livro dos anos 70 que reune diálogos entre vários filósofos, sociólogos, antropólogos.

Resolvi, então, escrever uma série de artigos que adotei por título Diálogos para o Futuro, nos quais pretendia iniciar uma conversação com autores de vários campos de conhecimento bem como convidar amigos e colegas para dialogarem comigo sobre temas de nossos interesses e do interesse de nossos leitores.

Assim, comecei a postar no meu Blog: http://jovinodash.blogspot.com o primeiro desses diálogos “convidando” Roland Barthes para conversar comigo sobre o seu prefácio para o livro citado. Após a postagem senti vontade de tratar deste tema separado daquele do outro Blog. Lá discuto idéias relacionadas com o Desenvolvimento Humano, considerando entre outros temas sobre Empreendedorismo, Cooperativismo, Sistemas Humanos, Teoria do Conhecimento, Liderança, Inteligência de Negócios (BI) e outros assuntos relacionados com administração, estratégia, prospectiva, etc. Por isso resolvi iniciar este Blog e espero que possamos aprender lendo e relendo os diversos artigos e livros que contribuam para esclarecer e melhorar nossa capacidade de leitura.

A próxima postagem irá tratar de um diálogo com Fritjof Capra a partir do seu livro “As Conexões Ocultas”. Vou concluir no outro Blog o diálogo com Françoise Chatelet e Gilles Lapouge, quando eles discutem o tema “A atualidade da utpoia”. Peço aos leitores visitarem aquele Blog caso desejem conhecer um pouco sobre a visão destes filósofos a respeito da Utopia e sua relação com os acontecimentos de “Maio 68″ na França.

Por que Diálogos para o Futuro? Bem. O que desejo com este trabalho é fazer com que possamos repensar o que desejamos para o nosso amanhã: o meu, o seu, o de nossas comunidades, e mais, o futuro de nosso Planeta. Vou dialogar para o futuro porque é lá que estaremos e lá que irá acontecer o que nós construimos hoje. Vamos discutir, agora, hoje, o que queremos para amanhã ou vamos cruzar nossos braços e ficar sentados esperando que aconteça qualquer coisa não importa mesmo o quê? Fico com a primeira parte desta questão e espero que você também fique para fazermos um bom trabalho para o… Futuro, Hoje.”

 

O blog original do professor Jovino (http://jovinodash.blogspot.com) centra-se em temáticas da administração, área de sua formação e atuação profissional. Boas opções de leitura para este feriado de Tiradentes e para incursões de tempos em tempos.

 

 

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 11h28
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Política e Pesquisa 149

 

Feriado de Tiradentes, maior referência para os anseios de liberdade deste país. Dia de sol em Itabuna, ainda que tenha chovido na madrugada. Um belo dia para refletir e imprimir um ritmo mais leve á vida.  Nesse dia, apresento a idéia de um blog portador de um título promissor. Longa vida a essa idéia, portanto.

 

Blog: Diálogos para o futuro

O professor e escritor Jovino Moreira da Silva (jovino40@yahoo.com.br), lança novo blog, por sinal, muito sugestivo. Eis a concepção segundo o próprio Jovino:

“Estava organizando alguns livros quando me deparei com um que continha textos de vários autores e prefaciado por Roland Barthes com o título: “A Crise da Sociedade Contemporânea”. Trata-se de um livro dos anos 70 que reune diálogos entre vários filósofos, sociólogos, antropólogos.

Resolvi, então, escrever uma série de artigos que adotei por título Diálogos para o Futuro, nos quais pretendia iniciar uma conversação com autores de vários campos de conhecimento bem como convidar amigos e colegas para dialogarem comigo sobre temas de nossos interesses e do interesse de nossos leitores.

Assim, comecei a postar no meu Blog: http://jovinodash.blogspot.com o primeiro desses diálogos “convidando” Roland Barthes para conversar comigo sobre o seu prefácio para o livro citado. Após a postagem senti vontade de tratar deste tema separado daquele do outro Blog. Lá discuto idéias relacionadas com o Desenvolvimento Humano, considerando entre outros temas sobre Empreendedorismo, Cooperativismo, Sistemas Humanos, Teoria do Conhecimento, Liderança, Inteligência de Negócios (BI) e outros assuntos relacionados com administração, estratégia, prospectiva, etc. Por isso resolvi iniciar este Blog e espero que possamos aprender lendo e relendo os diversos artigos e livros que contribuam para esclarecer e melhorar nossa capacidade de leitura.

A próxima postagem irá tratar de um diálogo com Fritjof Capra a partir do seu livro “As Conexões Ocultas”. Vou concluir no outro Blog o diálogo com Françoise Chatelet e Gilles Lapouge, quando eles discutem o tema “A atualidade da utpoia”. Peço aos leitores visitarem aquele Blog caso desejem conhecer um pouco sobre a visão destes filósofos a respeito da Utopia e sua relação com os acontecimentos de “Maio 68″ na França.

Por que Diálogos para o Futuro? Bem. O que desejo com este trabalho é fazer com que possamos repensar o que desejamos para o nosso amanhã: o meu, o seu, o de nossas comunidades, e mais, o futuro de nosso Planeta. Vou dialogar para o futuro porque é lá que estaremos e lá que irá acontecer o que nós construimos hoje. Vamos discutir, agora, hoje, o que queremos para amanhã ou vamos cruzar nossos braços e ficar sentados esperando que aconteça qualquer coisa não importa mesmo o quê? Fico com a primeira parte desta questão e espero que você também fique para fazermos um bom trabalho para o… Futuro, Hoje.”

 

O blog original do professor Jovino (http://jovinodash.blogspot.com) centra-se em temáticas da administração, área de sua formação e atuação profissional. Boas opções de leitura para este feriado de Tiradentes e para incursões de tempos em tempos.

 

Paraguai:

No vizinho Paraguai, depois de 61 anos de poder, o Partido Colorado deverá conhecer a condição de oposição. O ex-bispo Fernando Lugo, como previram pesquisas, deverá ser o presidente eleito. Venceu Blanca Ovelar do Partido Colorado e o general Lino Oviedo. Lugo se elegeu pela Aliança Patriótica para a Mudança. Como em toda vitória eleitoral, euforia entre os eleitores e simpatizantes e esperanças de tempos melhores. Eleições tendem a ser vencidas com palavras sedutoras na mente e nos corações. Entre as temáticas desse “Pai dos Pobres” do Paraguai está a pretensão de revisar o tratado binacional de Itaipu, que deverá vigorar, sem alterações, até 2022, quando os empréstimos de sua construção terão sido pagos. Provavelmente, o Brasil não deverá ceder nessa questão e o contrato deverá ser honrado.

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 11h26
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POLÍTICA E PESQUISA  148

 

Petróleo versus biocombustível

Durante inauguração de escritório da Embrapa em Acra, capital de Gana (matéria tratada há quase dois anos neste blog) Lula criticou taxação imposta sobre o etanol brasileiro por países desenvolvidos. Com razão, afirma Lula: "Eu não consigo entender, por que os países ricos não falam mal do preço do petróleo. Quanto implica, no custo do alimento, um barril de petróleo a US$ 103? Por que os países ricos sobretaxam o etanol brasileiro e não taxam o petróleo?" (Uol, 20 de abril de 2008). Acerta Lula quando afirma que não pode ser o etanol brasileiro o responsável pelo aumento dos preços dos produtos agrícolas no mercado internacional. A rigor, exceto pelo uso das melhores terras, com deslocamento de outros cultivos menos rentáveis para terras menos férteis, não procede a tentativa de colocar a cana-de-açúcar no papel de vilão. Como afirmou Lula em Gana, "não há contradição entre a busca de fontes alternativas de energia e o desenvolvimento de padrões agrícolas que garantam a segurança alimentar". Ecologicamente falando, é mais sensato a ONU taxar o petróleo do que o biocombustível que utiliza como matéria-prima a cana-de-açúcar. (Não é possível se dizer o mesmo do uso do milho, da soja e de outros grãos diretamente associados à alimentação humana e animal).

Por sua vez, na capital austríaca, Jean Ziegler, relator especial da ONU para o direito ao alimento, voltou a condenar a produção de biocombustíveis, afirmando ao jornal austríaco Kurier am Sonntag, entre outras coisas, que “o ocidente é culpado pela "fome em massa", devido ao crescimento dos biocombustíveis, à especulação no mercado de commodities e aos subsídios para exportação agrícola da União Européia” e que “os mercados de commodities estão trazendo "terror" ao mundo e que a inflação do preço dos alimentos é o equivalente a um "silencioso assassinato em massa" (UOL, 20 de abril de 2008).

Para entender as razões dessa recorrente crítica de Jean Ziegler aos biocombustíveis, tendo dificuldades para encontrar razões convincentes, creio que seja recomendável buscar apoio na ficção.

Em Hamlet, de Shakespeare, retomo algumas passagens, para entender porque nosso etanol, ecologicamente sustentável, recebe tantas e de tão variadas fontes críticas enquanto que o petróleo e outras fontes, não-renováveis e mais poluidoras não parecem suscitar semelhantes indignações:  

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua filosofia.” (Hamlet para o soldado Horácio, seu amigo, p. 35, edição da Martin Claret).

Para Lula, reservo duas passagens dessa mesma obra:

A primeira, de Hamlet para os guardas:

“O mundo está fora dos eixos. Oh! Maldita sorte! ... Por que nasci para colocá-lo em ordem! “ ( idem, p. 35).

E a segunda, que deveria ser a primeira, é uma frase quase sempre utilizada de forma descontextualizada e frisando apenas o chavão, mas que parece oportuna para o momento, ainda que Lula não revele titubeios nessa sua missão em defesa de uma fonte de energia ecologicamente limpa e agora na iminência de ser colocada no banco dos réus da inflação dos preços dos alimentos no mundo e da decorrente fome, entre os mais pobres, que esse aumento deverá provocar mundo afora:

“Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para alma; sofrer os dardos e setas de um destino cruel, ou pegar em armas contra um mar de calamidades para por-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os inúmeros naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis dificuldade. Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida. Aí está a reflexão que dá á desventura uma vida assim tão longa! (p. 56). ... É assim que a consciência nos transforma em covardes, é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções se debilita na pálida sombra do pensamento e é assim que as empreitadas de maior alento e importância, com semelhantes reflexões, desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação. Agora, silêncio!... (idem, p. 57).

Quem sabe a ficção shakesperiana nos ajude a entender a realidade que vivemos, ou será que o nosso universo real não passa de uma outra ficção? Seguramente, Lula independentemente de Shakespeare, deverá seguir em sua jornada.

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 19h03
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Política e Pesquisa 147

 

Preços dos alimentos e juros do Banco Central

Hoje, como se expôs em inserções anteriores, o mundo vive uma alta dos preços dos grãos e dos alimentos em geral, mesmo com altas também na produção, por várias razões, estando entre as principais o desvio para a produção do biocombustível de mais de 70 milhões de toneladas de milho nos Estados Unidos que antes eram destinados à alimentação humana e animal  (a cana-de-açúcar ainda que ocupe as melhores terras e dada a vastidão de terras ainda ociosas ou degradadas no país, ainda não pode ser colocada no banco dos réus). Outra causa importante, é que chineses, indianos, latino-americanos, enfim, os cadidãos do mundo que começaram a ganhar mais dinheiro e ter acesso ao mercado, em suma, China e Índia não consomem apenas minério de ferro, petróleo, mas também alimentos. Essa escassez vem salvando a agricultura brasileira da derrocada do dólar face ao nosso real. Sendo assim, a inflação hoje que se observa no país, tem como causa principal uma inflação externa, em Dólar, Euro e outras moedas. Importar mais não reduz preços internos como em outros tempos. Mesmo porque, dada a globalização da agricultura, os preços praticados interna e externamente tendem a se nivelar. Se isto é verdadeiro, qual o real impacto do Banco Central ter aumentado em meio ponto a taxa básica de juros? Sobre a inflação, não deverá ser relevante. Contudo, seguramente, será relevante num efeito colateral na intenção e principal no efeito, ou seja, provocará uma maior desaceleração do Dólar face ao Real, dada a enxurrada crescente de dólares que entram no país atraídos pela maior taxa de juros reais praticada no mundo. Paradoxalmente, enquanto isso, nos Estados Unidos e alhures, essa mesma taxa, ainda que mais baixa, está caindo, visando dinamizar a economia, tentando ao menos minimizar os efeitos da crise que por lá vai se manifestando e preocupando. Os brasileiros comuns, que já avançaram no comprometimento futuro de sua renda via consumo financiado pelo crédito, com a elevação dos juros, poderão descobrir que não mais conseguirão pagar seus débitos. E assim, o extremado zelo do Banco Central terá contribuído para fortalecer em demasia o Real, zerado os saldos positivos da balança de pagamentos e contribuindo para o país, à sua maneira, viver sua crise. Estarei delirando ao fazer esse comentário?  

 

Pesquisa registrada na Justiça Eleitoral realizada em Mascote

A Sócio Estatística realizou pesquisa de opinião em Mascote, entre os dias 19 e 20 de janeiro de 2008. A amostra do tipo probabilística estratificada por idade, sexo e regiões da cidade. Corresponde a um erro amostral em torno de 4,5%, supondo um intervalo de confiança da ordem de 95%.  Ao todo, foram consideradas válidas as respostas de 606 cidadãos.

Geograficamente, a pesquisa realizada na sede e nos povoados de São João do Paraíso, Teixeira do Progresso, Pimenta, Ruinha, Novo Horizonte e com eleitores da zona rural, na feira livre.   

 Em Mascote, o governo Lula tem uma avaliação tendendo ao positivo. 74,4% de avaliação positiva contra 4,5% de negativa. O governo Wagner tem uma avaliação tendendo levemente ao positivo. 39,5% de avaliação positiva contra 10,8% de negativa. O prefeito Washington tem uma avaliação tendendo ao negativo. 25,1% de avaliação positiva contra 55,5% de negativa.

Eleitoralmente, na pesquisa espontânea, Gilvan teria 9,0% das intenções de voto contra 2,8% de Zé Lins, 19,9% de Ferreira, 0,5% de Arnaldo e 0,5% de Mattedi. Os que não apontaram nenhum nome somam 67,1%.

Na pesquisa estimulada, Gilvan teria 21,5% das intenções de voto contra 10,8% de Zé Lins, 40,3% de Ferreira, 4,3% de Arnaldo e 3,2% de Mattedi. Os que não sabem somam 16,8%.

Consistência da intenção de voto: para 45,9% dos eleitores, o voto é fechado.

Pesquisa de rejeição: A rejeição de Gilvan seria de 18,2% contra 23,7% de Zé Lins, 15,7% de Ferreira, 23,6% de Arnaldo e de 24,1% de Mattedi.

Os resultados, em janeiro, eram esses. Hoje, é possível que sejam outros. Em tese, a validade da pesquisa está vencida. Contudo, caso se trate de quadro estabilizado, ainda poderia estar refletindo fidedignamente a realidade. Para registro, eis o quadro vigente no passado.

 

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 18h30
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Política e Pesquisa 146

Segurança alimentar

Não bastasse a crise financeira, o mundo está diante de uma crise mundial de alimentos. O jornal New York Times, de 8 de abril último, em matéria traduzida pelo UOL, por George El Khouri Andolfato, traz artigo de Paul Krugman sobre a crise mundial de alimentos. A questão chave é: como explicar essa crise?

Segundo o autor, nos dois últimos anos, “os preços do trigo, milho, arroz e outros alimentos básicos dobraram ou triplicaram, com grande parte do aumento ocorrendo nos últimos poucos meses”. Continua ele, “os altos preços dos alimentos incomodam até mesmos os americanos relativamente prósperos, mas são realmente devastadores nos países pobres, onde os alimentos freqüentemente são responsáveis por mais da metade das despesas de uma família”.

Para Krugman, essa situação decorre da “combinação de tendências de longo prazo, azar e política ruim”.

As duas primeiras causas, segundo Krugman, não seriam culpa de “ninguém”.

A primeira, é que as pessoas, como os chineses, que começaram a ganhar dinheiro, estão comendo mais carnes e grãos. (Sabíamos que a China não apenas consumia minério de ferro, carvão e petróleo e também se sabia que o modelo de consumo norte-americano e das elites em geral, se generalizado, o mundo não suportaria. Disso também ouvimos muitas vezes).  A propósito, citando o autor, para um bife de 100 calorias seriam necessários 700 calorias em ração animal, à base de milho e soja e outros grãos.

A segunda causa é o preço do petróleo, que bateu os 100 dólares ao barril e que é quem move a moderna agricultura, na produção de fertilizantes, operação de maquinaria e no transporte.

A terceira causa seria “uma seqüência de condições meteorológicas adversas em áreas-chave de cultivo”, como na Austrália, que vem passando uma severa estiagem, afetando suas exportações mundiais de trigo (Austrália é o segundo exportador mundial).

Krugman associa preço do petróleo à Guerra do Iraque, a estiagem australiana à mudança do clima, decorrente do efeito estufa. Agrega ainda políticas ruins, como a “ascensão do demônio etanol e outros biocombustíveis”. Aqui, o vilão seria sobretudo o etanol de milho, subsidiado, que não apenas consome no processo muita energia como subtrai milho, em quantidades expressivas, da alimentação humana e animal. Segundo Krugman, mesmo a cana-de-açúcar, aparentemente “boa”, quando induz desmatamento, também contribuiria para o agravamento do problema.

Contudo, Krugman aponta ainda: “um motivo para a atual crise dos alimentos ter ficado tão severa, tão rapidamente, é que os grandes agentes no mercado de grãos se tornaram complacentes.”  Ou seja, “Governos e mercadores privados de grãos costumavam manter grandes estoques em tempos normais, para o caso de uma safra ruim criar uma escassez repentina. Mas ao longo dos anos, foi autorizado que estes estoques preventivos encolhessem, principalmente porque todos acreditavam que os países que sofressem quebra de safra sempre poderiam importar o alimento necessário. Isso deixou o equilíbrio mundial de alimentos altamente vulnerável a uma crise que afeta muitos países ao mesmo tempo -da mesma forma que a negociação de títulos financeiros complexos, que deveriam afastar o risco por meio da diversificação, deixaram os mercados financeiros mundiais altamente vulneráveis a um choque por todo o sistema.”

Krugman aponta como saídas:

a) acionar o Programa Mundial de Alimentos da ONU para ajudar as pessoas necessitadas. Caráter emergencial.

b) “reagir contra os biocombustíveis, que revelaram ser um erro terrível”.
Conclui que “alimento barato, assim como o petróleo barato, pode ter se transformado em algo do passado”.

Para finalizar, algumas ponderações colaterais: 

a)       Essa crise alimentar, com efeitos perversos sobre muitos e muitas partes do mundo, acontece em um período em que, apesar da referida estiagem, o mundo está batendo recordes mundiais de produção. 2006 teria sido um recorde. 2007 outro. O Brasil neste ano deverá produzir safra recorde de grãos. Mesmo assim, crise alimentar. Agricultura e fome será cada vez mais relevante como temática acadêmica e como política pública.

b)      Não fosse as altas expressivas de preços dos grãos, com o dólar tão baixo, há muito que o mundo rural brasileiro teria desabado sobre Brasília. Produzir alimentos vai ser cada vez mais atrativo.  Aumentará a procura pela terra como fonte de produção e geração de renda. Terras ociosas serão cada vez mais pressionadas para cumprir sua função social.

c)       O Brasil, como afirmou ainda ontem Lula na Holanda, tem muitas terras agricultáveis, cerca de 60 milhões de terras utilizadas para pecuária degradadas. Não precisaria destruir florestas. Não é justo condenar o biocombustível de cana-de-açúcar, energia limpa, eco-energia, pela escassez de alimentos vigente Contudo, quando se tenta dissociar crise de alimentos da produção de biocombustíveis omite-se um dado sobre a utilização da terra: a cana-de-açúcar não aprecia terras degradadas. Exige as melhores terras. Na lógica do sistema, desde os tempos coloniais, aos cultivos mais rentáveis, as melhores terras. Os cultivos menos rentáveis precisarão se viabilizar nas terras menos férteis.

d)      O modelo de consumo norte-americano e das elites ocidentais em geral não é passível de reprodução. O mundo entraria em colapso. Com a emergência de novos milhões de seres humanos ao consumo, até que enfim, a pressão por alimentos vem gerando altas nos preços em dólar. Em outros tempos, abrir o mercado para importações era uma estratégia para indústrias de enlatados reduzirem o preço das matérias-primas do país. Hoje, a inflação vem cavalgando no Dólar.  

 

    

Crise de 1929 e 2008

De John Plender, em Desigualdade social nos EUA é a maior desde a Grande Depressão. Por que as empresas poderão enfrentar uma crise de legitimidade? (Financial Times, íntegra do artigo no UOL, 8 de abril de 2008).

A desigualdade econômica nos Estados Unidos alcançou o nível mais elevado desde aquele que ficou conhecido como o mais maldito dos anos: 1929. Nas principais economias dos países de língua inglesa as desigualdades de renda alcançaram extremos que não eram vistos desde a era de "O Grande Gatsby".

De forma bem semelhante ao que ocorre nesta década, os anos 1920 foram um período de vigoroso aumento dos lucros corporativos e do endividamento familiar. Nadando em dinheiro fácil, Wall Street foi fisgada por aquilo que o economista J.K. Galbraith, no seu original trabalho subseqüente sobre o período - "The Great Crash" ("O Grande Crash") -, chamou de "the magic of leverage" ("a mágica da alavancagem"): a capacidade de elevar os lucros pegando dinheiro emprestado.”*

*"The Great Crash", 1929 (Hamish Hamilton, 1955)